O que são Terras Raras
O que são Terras Raras
Damos o nome de terras raras a um grupo de elementos metálicos especiais da tabela periódica, que são atualmente amplamente empregados na indústria, em diversos ramos.
Apesar do nome, as terras raras não são, na verdade, exatamente raras. Esses elementos são encontrados com certa abundância na crosta terrestre, sendo que, por exemplo, o Cério é o 25º elemento mais abundante – tão comum quanto o cobre.
Mas porque o nome “terras raras” então? Bem, esses elementos receberam essa classificação por serem de difícil separação e obtenção, sendo considerados inicialmente (à época de sua descoberta) raros por conta disso. São normalmente encontrados na crosta terrestre na forma de óxidos, em em minerais como a monazita.
As terras raras são categorizadas em dois grupos principais: elementos leves (do lantânio ao samário) e elementos pesados (do európio ao lutécio), que são menos comuns e, portanto, possuem custo mais elevado.
Esses elementos pertencem a um grupo mais geral chamado de grupo dos Lantanídeos (elementos de números atômicos 57 a 71 na tabela periódica). Também classificamos como terras raras dois elementos que não são lantanídeos: o escândio (21) e o ítrio (39).

O nome “lantanídeos” é derivado do elemento químico Lantânio, que é o primeiro elemento do grupo.
Escândio e Ítrio (não pertencem ao grupo dos Lantanídeos):

Importância Econômica das Terras Raras
A importância econômica das terras raras reside no fato de serem componentes indispensáveis para a tecnologia de ponta, a transição energética e a indústria de defesa global. Elementos como o neodímio, o praseodímio e o cério possuem propriedades magnéticas e catalíticas únicas, sendo por conta disso imprescindíveis para a fabricação de componentes como os superímãs utilizados em motores de veículos elétricos e turbinas eólicas, além de integrarem a composição de smartphones, telas e sistemas aeroespaciais avançados. Sem esses minerais, a transição para uma economia de baixo carbono e a produção de eletrônicos modernos seriam severamente limitadas.
Além do impacto industrial direto, esses materiais também carregam um peso geopolítico estratégico imenso devido à alta concentração do mercado global. A China detém o monopólio histórico de grande parte da extração e da vasta maioria do refino desses elementos, o que gera uma dependência econômica crítica para potências ocidentais e forte volatilidade de preços em momentos de restrição de oferta.
Assim, o domínio da complexa metalurgia e das cadeias de suprimento das terras raras é, na atualidade, um dos maiores medidores de soberania econômica e avanço tecnológico entre as nações.
Aplicações das Terras Raras
Como vimos ao falar sobre a importância econômica, as terras raras encontram inúmeros usos na indústria, como por exemplo aplicações em eletrônica, supercondutores, óptica, em catalisadores, smartphones e na fabricação de ímãs, entre muitas outras.
A tabela a seguir lista as terras raras (com seus números atômicos e símbolos) e algumas de suas principais aplicações.
| Nº Atômico | Símbolo | Elemento | Aplicação Atual |
| 21 | Sc | Escândio | Ligas empregadas na indústria aeroespacial |
| 39 | Y | Ítrio | Fósforos, cerâmicas e ligas metálicas |
| 57 | La | Lantânio | Baterias, catalisadores para refino de petróleo |
| 58 | Ce | Cério | Catalisadores, Polimento de vidros (como lentes) |
| 59 | Pr | Praseodímio | Ímãs de grande força, pigmento cerâmico amarelo |
| 60 | Nd | Neodímio | Ímãs de grande força, como os empregados em HDs de computadores |
| 61 | Pm | Promécio | Fonte de radiação Beta |
| 62 | Sm | Samário | Ímãs para temperaturas elevadas |
| 63 | Eu | Európio | Luzes fluorescentes |
| 64 | Gd | Gadolínio | Agente de contraste em imagens por ressonância magnética, reatores nucleares |
| 65 | Tb | Térbio | Fósforos para iluminação, Ímãs poderosos para temperaturas elevadas |
| 66 | Dy | Disprósio | Ímãs poderosos para temperaturas elevadas, Lasers |
| 67 | Ho | Hólmio | Ímãs mais poderosos existentes atualmente |
| 68 | Er | Érbio | Lasers, coloração de vidros |
| 69 | Tm | Túlio | Materiais cerâmicos magnéticos (ainda em desenvolvimento) |
| 70 | Yb | Itérbio | Painéis solares, tecnologias de fibras ópticas |
| 71 | Lu | Lutécio | Scanners para Tomografia por Emissão de Pósitrons (PET scanner) |
Na imagem a seguir podemos ver duas amostras de terras raras, provenientes da coleção particular do autor:

Coleção particular de Fábio dos Reis.
Uma curiosidade: Estima-se que cerca de 97% das terras-raras estejam localizadas em alguns países da Ásia, principalmente na China, a qual possui mais de 2/3 das reservas mundiais desses metais, e é responsável por 87% do total que é comercializado no planeta.
O Brasil e as Terras Raras
O Brasil vive o clássico cenário do “gigante adormecido” quando o assunto é terras raras. Nós temos uma das maiores riquezas minerais do planeta debaixo dos nossos pés, empatando com o Vietnã no segundo lugar do ranking global de reservas. Para melhorar, nosso solo é cheio de “argila iônica” (rica em terras raras, encontrada principalmente em Goiás e Minas Gerais), um tipo de material super valioso porque concentra os elementos mais caros do mercado, fundamentais para fabricar os ímãs potentes dos motores elétricos.
A ironia é que, apesar de estarmos sentados em uma fortuna tecnológica de mais de 20 milhões de toneladas, nossa produção real não chega a 1% do mercado mundial. O país começou a engatinhar na extração comercial muito recentemente, mas esbarra no nosso maior gargalo histórico: a falta de capacidade para refinar esse minério. Nós simplesmente não temos indústrias para fazer a separação química fina desses elementos.
Esse panorama traça um paralelo forte com o nosso passado. No período colonial, o Brasil inundou a Europa com o ouro bruto extraído de Minas Gerais, sustentando o sistema monetário de outras potências enquanto ficava com o lucro menor da matéria-prima. Séculos depois, a história se repete com a nova riqueza metalúrgica do século XXI: continuamos exportando a terra bruta para a China e importando a tecnologia pronta e caríssima de volta.
As Metas de Produção do Brasil até 2040
O Ministério de Minas e Energia encomendou um estudo técnico (elaborado pelo CEBRI (Centro Brasileiro de Relações Internacionais) com apoio da União Europeia e do BID) para desenhar a “Estratégia Nacional de Terras Raras” (ENTR). O plano do governo estabelece metas divididas pelas três fases da cadeia produtiva (upstream, midstream e downstream):
- Meta Geral de Mercado (Até 2040): O objetivo principal é que o Brasil morda uma fatia de 20% de toda a produção global de terras raras.
- Extração: Para chegar aos 20% do planeta, a meta é colocar no mercado 75 mil toneladas por ano de Óxido de Terras Raras Total (Treo) até 2040 (a projeção mundial para a época é de 380 mil toneladas).
- Separação e Refino: Rompendo a dependência estrangeira, o plano projeta criar uma capacidade instalada de 40 mil toneladas por ano de processamento de óxidos. Dentro desse volume, 10 mil toneladas serão focadas exclusivamente nos grupos mais cobiçados da transição energética: Neodímio-Praseodímio e Disprósio-Térbio.
- Produtos Finais: Na ponta final, que é a de maior valor agregado (onde estão os componentes de alta tecnologia), a ambição é atingir uma escala de fabricação nacional de 5 mil toneladas por ano em ímãs permanentes e ligas metálicas.
Com essas metas, nosso país pode deixar de ser só o “exportador de terras” e virar um player industrial completo até 2040. Será que conseguiremos?
Referências
- Lynas Corporation LTD – Summary of Rare Earth Elements and their Applications
- Emsley, J. Nature´s Building Blocks – An A-Z Guide to the Elements. Oxford Press. 2003. 1ª ed.
- CEBRI. Apoio à preparação da Estratégia Nacional de Terras Raras. Junho 2026.